sábado, 13 de fevereiro de 2016

BROOKLYN - REVIEW



Saoirse Ronan começou a ter destaque muito cedo em sua carreira de atriz sendo indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante com apenas 13 anos pelo filme “Desejo e Reparação” (2007). Este ano, ela volta a cena da temporada de premiações com o drama “Brooklyn”, indicado a estatueta em três categorias (Filme, Atriz e Roteiro Adaptado).

Adaptado do best-seller homônimo escrito por Colm Tóibín, “Brooklyn” é uma história linear e simples que narra o dilema de uma jovem mulher ao se ver dividida entre dois mundos. Na Irlanda do pós-guerra, Eilis (Ronan) chega a conclusão de que o lugar não tem muito a lhe oferecer. Incentivada por sua irmã mais velha, ela consegue, por intermédio da igreja, um visto para se estabelecer em Nova York, Estados Unidos. Lá, a moça terá que lidar com os desafios de se ver pela primeira vez por sua conta, sem um rosto amigo para lhe confortar.

Quem está nessa fase de transição da vida – de adolescente para a vida adulta – poderá se identificar muito com a jornada de Eilis. “Adultecer” pode ser muito doloroso e solitário, principalmente em terras estranhas. Não é de se espantar que logo a saudade de casa começa a afetar profundamente a moça. Nesse momento ela conhece Tony (Emory Cohen, muito encantador) e logo a relação com o rapaz a ajudará a se estabelecer e encarar a vida na América. Entretanto, o destino (sempre ele) faz com que, através de uma repentina perda, Eilis tenha que voltar para a Irlanda.

O que seria uma viagem temporária acaba promovendo a grande questão dramática do filme, pois, de volta a sua cidade Natal, Eilis tem oportunidades que, antes de sua mudança, lhe foram privadas de certa forma. Essa segunda fase na Irlanda mostra a transformação de Eilis em uma mulher segura, sofisticada e até exótica, chamando muito a atenção das pessoas. Agora, com a chance de um emprego estável e um pretendente em potencial, Eilis deve decidir o verdadeiro sentido de lar e arcar com as consequências de suas escolhas.

“Brooklyn” é um puro filme de atriz, onde a história é integralmente centrada e nivelada pela performance de sua protagonista. Saoirse está ótima com uma atuação sólida e madura. O filme ainda recebe o brilho da breve participação de Julie Walters, como a administradora da casa de moças que recebe Eilis nos EUA. A leveza da história, que poderia muito facilmente descambar para o melodrama, é um ponto positivo. O diretor John Crowley fez um belo trabalho ao conduzir essa adaptação dos livros para a telona. O filme tem estreia prevista para esta quinta-feira, dia 11, em todo país.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A GAROTA DINAMARQUESA - REVIEW



“A Garota Dinamarquesa” é adaptação para o cinema baseada na obra de mesmo nome do autor David Ebershoff.  A história é centrada na vida do pintor Einar Wegener que foi um dos primeiros transsexuais a se submeter a uma operação de mudança de sexo. Ícone do movimento LGBT até hoje, sua trajetória chega as telonas com o brilho da interpretação de Eddie Redmayne (“A Teoria do Tudo”) acompanhado da igualmente talentosa Alicia Vikander, que interpreta sua esposa, Gerda. O filme está concorrendo ao Oscar desse ano em quatro categorias (Ator, Atriz Coadjuvante, Design de Produção e Figurino).

Eddie Redmayne é um homem cuja imagem andrógina tornou oportuna a sua escalação para o papel de Lili. Seu corpo lânguido e rosto pálido, de traços finos e delicados, configuram uma moldura perfeita para o que o physique du rôle exige neste filme. Esse dado – a escalação de um homem para o papel – é particulamente um grande acerto. Sem querer desmerecer mulheres que já interpretaram homens que se tornam mulheres, como Felicity Huffman em “Transamérica”, por exemplo, que esteve brilhante. Mas, o biotipo de Redmayne e sua habilidade de mimetizar com elegância os trejeitos femininos em um crescente aprendizado é uma das coisas mais interessantes da película.

Mas a história não se resume apenas a transição submetida por Einar. Muito mais que isso, o filme é, na verdade, uma bela narrativa sobre o amor verdadeiro entre duas pessoas que permanecem fiéis até o fim. Gerda, vivida lindamente pela talentosa atriz sueca Alicia Vikander (“Ex Machina”), teve que lidar com o fato de que seu marido deseja se tornar uma mulher integramente, incluindo seu corpo. Numa época (década de 20) em que homossexualismo era um tabu, imagine uma transição completa de gênero. Einar ou Lili (como ele passou a se chamar) foi considerado esquizofrênico se submento a tratamentos como radiação, internações ou uso de remédios.

O contraste entre Gerda e Einar é além palpável, chega a ser irônico. Gerda é independente, moderna, com o desejo de se estabelecer como pintora. Ela deseja ardentemente por essa validação profissional e a autonomia de sua carreira sempre à sombra do bem-sucedido marido, também pintor. Einar, por outro lado, ao passo que assume gradualmente o seu alter-ego feminino, é de uma postura tímida, recatada e discreta – tal qual uma moça da época supostamente deveria ser.  

O desenvolvimento deste projeto vinha se desenrolando por anos, e Nicole Kidman estava escalada para viver Einar/Lili, além de produzir o filme. Charlize Theron, Gwyneth Paltrow e Rachel Weisz foram algumas das estrelas cotadas para viver Gerda antes que Vikander fosse escalada em 2014. A esta altura Tom Hooper já estava comprometido com a direção e Nicole se afastando completamente da produção.

“A Garota Dinamarquesa” é um filme elegantemente executado, elevado por uma trilha musical belíssima, uma fotografia exemplar e com atuações de excelente nível. O que pesa contra a produção é que a história está sendo vendida como uma cinebiografia, quando, na verdade, os fatos mostrados no filme/livro diferente muito do que aconteceu realmente. Gerda na verdade era bissexual e mantinha um casamento aberto com Einar. Ebershoff, o autor do livro mudou tantos itens, que a obra é mais uma ficção usando personagens que existiram de verdade do que uma biografia.

Entretanto, a despeito das liberdades tomadas por Ebershoff e Tom Hopper (que também dirigiu Redmayne em “Os Miseráveis”), “A Garota Dinamarquesa” é um filme atual e necessário que fomenta a discussão sobre gêneros tão presente atualmente.  

Confira o trailer aqui:



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O REGRESSO - REVIEW

Chega aos cinemas esta semana o épico “O Regresso”, grande concorrente ao Oscar deste ano com nada menos que 12 indicações, incluindo Melhor Filme, Ator, Ator Coadjuvante e Diretor. O filme é conduzido pelo maestro mexicano Alejandro G. Iñárritu, que no ano passado levou as estatuetas de Direção, Roteiro e Filme pela comédia satírica “Birdman”. Estrelado por Leonardo DiCaprio e Tom Hardy, a produção é um suspense de vingança executado com perfeição técnica completamente deslumbrante.

No decorrer de seus 156 minutos de duração, o filme compreende uma jornada de superação e sobrevivência ancorada no talento e comprometimento de DiCaprio (que grita por um Oscar). Sua entrega ao personagem é completa e admirável, posto que poucas vezes vi um ator sofrer tanto por sua arte. Considere que além da exposição às severas condições de filmagem (nas baixas temperaturas do Canadá e da Argentina) que se limitavam a uma hora de exposição da luz do sol por dia, DiCaprio ainda abraçou desafios que incluíram: devorar um pedaço cru do fígado de um bisão, mesmo sendo vegetariano, e aprender duas línguas indígenas diferentes (Arikara e Pawnee).

Adaptado do romance baseado em fatos reais de Michael Punke, publicado em 2002, “O Regresso” conta a história de Hugh Glass, que, nos idos de 1820, trabalhava em uma expedição para extrair peles de animais em terrenos inóspitos, de natureza agressiva, e ainda, cercado de nativos americanos hostis além de uma concorrência nada amigável de uma guarnição francesa. Acompanhado de seu filho mestiço, Glass serve ao batalhão mas, antes de mais nada, zela por sua prole. Entretanto, após ser atacado por um urso (em uma cena impressionantemente realista) e perder seu único filho, Glass é abandonado à própria sorte, gravemente ferido e sem nenhum recurso de sobrevivência. Daí começa sua jornada de sobrevivência motivada exclusivamente pela vingança contra Fitzgerald (Tom Hardy), o homem responsável pelo seu infortúnio.

Fitzgerald é um antagonista óbvio visto que tudo no roteiro contribui para que o público desenvolva uma ogeriza ao personagem. Um fato que depõe contra o filme num todo, visto que acaba caindo em arquétipos pré-estabelecidos onde todos torcemos para um desfecho previsível de bem contra o mal. Talvez essa construção e desenvolvimento de personagem, tanto de Hardy quanto de DiCaprio, sejam as coisas mais rasas da produção. O que certamente não desmerece a obra.

“O Regresso” é um banquete visual, uma experiência estética e sensorial. A fotografia poderosa de Emmanuel Lubezki é impressionante e incrivelmente bela. Pode-ser traçar paralelos com outro cineasta também famoso pela contemplação da natureza – Terrence Malik. Logo na início do filme, onde acontece o ataque Arikara ao acampamento de Glass e seus companheiros, somos brindados com cenas de takes longos e contínuos, uma das assinaturas de Iñárritu, que eleva a sensação de tensão e crueza física.



Se em “O Náufrago”, Tom Hanks tinha sua afetuosa interação com a bola Wilson e em “Perdido em Marte”, Matt Damon tinha um personagem extremamente carismático e otimista, em “O Regressa”, Leonardo DiCaprio tem apenas a determinação expressada através de suspiros de dor e grunhidos abafados pelos ferimentos na garganta para sustentar sua atuação durante boa parte do filme. E ainda assim ele e Iñarritu conseguem conceber uma narrativa que entretem e emociona num desfecho quase catártico. E nesta boa fase de Inãrritu é de se esperar que mais coisas boas virão no futuro. 

Veja o trailer aqui: