sexta-feira, 30 de outubro de 2015

OS 33 - REVIEW

Em 2010, o Chile foi cenário para uma incrível história de sobrevivência e determinação: o resgate de 33 mineiros aprisionados nos destroços de uma centenária mina de extração de ouro por nada menos que 69 dias. As circunstâncias ao redor dessa história já seriam suficientes para a criação de uma surpreendente narrativa de ficção, portanto  o fato de ser um caso baseado em fatos reais torna o projeto ainda muito mais interessante.

Quando os trabalhadores se deslocam de seus lares para mais uma jornada na já instável  mina, localizada em San Jose no Chile, a diretora Patricia Riggen determina o tom de que algo de ruim está por vir. Por questões dramatúrgicas,  o filme se concentra em apenas alguns dos mineiros e dá espaço para apenas alguns convenientes aspectos da comoção internacional que o caso gerou.

O líder Mario Sepúlveda, interpretado por um descontraído Antonio Banderas em uma atuação corajosa, é o coração do filme. O carisma e integridade de seu personagem são um ponto forte do longa. Outro destaque vai para Lou Diamond Phillips, que se sai bem como o líder “destronado” em busca da redenção da culpa de saber que o local era impróprio para o trabalho e ainda assim, permitir que aqueles homens seguissem para aquela tragédia iminente.

Rodrigo Santoro e Juliette Binoche são outros destaques do elenco. A escalação curiosa da veterana atriz francesa é uma recompensa para essa aposta arriscada que só com um talento como o de Binoche poderia superar. Santoro, por sua vez, entrega uma atuação comedida, mas correta. Cabe ao seu personagem a difícil tarefa de ser um elo entre o governo do Chile e a missão de resgate, administrando um bom-mocismo com doses de realidade. Sua atuação seria perfeita se o ator brasileiro não caísse na tentação da canastrice que volta e meia aparece. Felizmente, esses momentos são breves.

Apesar de “Os 33” ser um comovente retrato do incidente, o filme falha ao oferecer uma abordagem ora superficial, ora superdramatizada, apelando para os mais óbvios tipos de clichê. Entretanto, algumas cenas lúdicas, como a última refeição entre os mineiros, ou dramáticas, como a exploração dos familiares lutando do lado de fora da mina, são bem dirigidas e um diferencial para o resultado final do longa. O filme tem ótimos pontos positivos como a trilha sonora e a fotografia, contudo, se mostra fraco em termos de roteiro e conteúdo. Esperava-se mais de uma história com tanto potencial para ser um grande filme que aqui apenas sai como mediano.

Baseado no livro de Hector Tobar, que foi escrito como um consenso dos 33 sobreviventes, a produção estreia no Brasil nesta quinta-feira, 29 de outubro. 

Confira o trailer:





terça-feira, 27 de outubro de 2015

STRAIGHT OUTTA COMPTON - A HISTÓRIA DO NWA - REVIEW

No início da década de 90, uma onda de protestos marcou a cidade de Los Angeles, em consequência de um incidente envolvendo o espancamento de um cidadão pela polícia. Um vídeo amador com imagens da agressão chegou às mãos da mídia causando um ultraje de repercussão global. Como os policiais foram absolvidos da acusação de abuso de poder, as pessoas foram às ruas com um claro sentimento de revolta. E destes protestos, 53 pessoas morreram e mais de duas mil ficaram feridas. Esse acontecimento foi uma explosão de uma sensação comunitária de indignação que há muito já vinha crescendo. Nos cinemas, Spike Lee aparecia com “Faça a Coisa Certa”. Nas rádios, o Public Enemy gritava “Fight the Power” e o NWA, “F*ck tha Police” e assim a questão racial nos Estados Unidos ganhava o mundo.

É esse o contexto que sublinha o excelente “Straight Outta Compton – A História do NWA”, que tem seu lançamento comercial previsto esta quinta, 29 de outubro. O NWA é considerado o pioneiro do estilo Gangsta Rap que exalta um estilo de vida onde o hedonismo  e a violência são louvados bem como o sexismo e a misoginia (coincidência ou não, o filme não tem um personagem feminino com mais de cinco linhas de diálogo).

Apesar desses elementos de superficialidade permearem a música do grupo, os próprios rappers se autodefiniam como representantes do Reality Rap – um tipo de porta voz do povo ao expor a realidade das ruas. O single “F*ck Tha Police” é a máxima expressão do que se passava na Los Angeles daquela época. A forma como os afro-descendentes eram tratados pela força policial de Los Angeles é um tema recorrente no filme e clara inspiração para a música.

Em uma cinebiografia de um grupo ou uma banda, geralmente escolhe-se um integrante para receber mais destaque e conduzir a trama. Como o recente “Love & Mercy”, por exemplo, onde a história dos Beach Boys é pano de fundo para falar de seu líder, Brian Wilson. É um desafio complexo dar um desenvolvimento igualitário para vários personagens quando se dispõe de tão pouco tempo de tela. Entretanto, em “Straight Outta Compton”, o diretor F. Cary Gray consegue dar igual importância a três dos cinco membros da banda de rap. A história se desenrola tendo como foco as vidas de O’Shea ‘Ice Cube’ Jackson, Eric ‘Easy E’ Wright e Andre ‘Dr. Dre’ Young e como esses três rapazes vindos de uma região pobre da California se tornaram uma das bandas de rap mais influentes de sua geração.

Em 1986, o jovem Andre convence seu amigo Easy E (um traficante de drogas peixe pequeno) a investir seu dinheiro no ramo da música. Dr. Dre, como ele se apresentava, já se mostrava um DJ e produtor de talento.  Junte a esta equação as letras chocantes de Ice Cube e o investimento não só financeiro, mas também vocal de Easy E, e está criado o NWA (Niggaz Wit Attitude). Ainda fariam parte do grupo, MC Ren (também compositor) e DJ Yella.
Apesar de bem intencionado, “Straight Outta Compton” intencionalmente suaviza alguns fatos e varre para debaixo do tapete algumas controversas situações, talvez para evitar algum processo na justiça. O fim da banda, marcada por uma guerra de egos e disputas financeiras, muito tem a ver com as atividades do empresário do NWA na época, Jerry Heller (interpretado pelo sempre ótimo Paul Giamatti).

É válido exaltar as atuações viscerais de O’Shea Jackson Jr (Ice Cube), Jason Mitchell (Easy E) e Corey Hawkins (Dr. Dre) e a fiel caracterização dos personagens. Mesmo que a produção seja vaga em muitos detalhes, o filme capta com justiça a essência do NWA exaltando sua vibração e talento, em uma época onde suas músicas não eram nem consideradas legítimas.

Veja o trailer:


terça-feira, 20 de outubro de 2015

SICÁRIO - TERRA DE NINGUÉM - REVIEW

“Homo homini lupus” é a  máxima em latim que vem a cabeça depois de assistir um filme como “Sicário – Terra de Ninguém”. Em tradução livre, significa: o homem é lobo do homem, onde uma guerra perpétua pela existência é justificada por uma estúpida violência hoje tão comum e inerente à nossa realidade. O curioso é que uma das frases mais marcantes do filme, proferida pelo personagem de Benício Del Toro à personagem de Emily Blunt, está diretamente ligada a este pensamento. Ele diz: “Essa é a terra dos lobos. E você não é um lobo”.

Dirigido pelo cineasta franco-canadense Denis Villeneuve, que é também realizador dos ótimos “Incêndios” (2010) e “Os Suspeitos” (2013), “Sicário –Terra de Ninguém” é definido como um poema obscuro, onde temas como vingança, justiça e moralidade são discutidos de uma forma dúbia, macabra e até perversa.

Na história, Emily Blunt é Kate Macer, uma agente do FBI reservada e um pouco tímida que tem pelo seu trabalho uma devoção quase ingênua. Será ela que nos conduzirá pelo intricado e bem elaborado roteiro do estreante Taylor Sheridan. Kate é reconhecida por suas habilidades táticas em campo e por isso é convocada a participar de uma missão na fronteira entre Estados Unidos e México para localizar e eliminar um poderoso chefe do cartel de drogas mexicano. Ela deverá responder a Matt Graver, um tipo um tanto fanfarrão, com seus chinelos de dedo e dualidade moral que é defendido com maestria pelo ator Josh Brolin. Para completar esta equipe, Benício Del Toro incorpora Alejandro, que pouco se sabe a respeito de suas intenções, mas entende-se que deve ser respeitado.

É interessante observar o arco dos personagens e entender, juntamente com Kate, as motivações e os por quês, num suspense elevado pela crueza da violência e da realidade representada com um naturalismo sujo e arrepiante. Entretanto, em nenhum momento Villeneuve se usa de algum exagero ou sensacionalismo aqui. Tudo é preciso e cirurgicamente trabalhado com um esmero louvável.


As atuações estão fantásticas e realmente são um diferencial para o resultado final do filme que é executado em todas suas áreas com um primor absoluto. A trilha sonora minimalista composta por Jóhan Jóhannsson (indicado ao Oscar por “A Teoria do Tudo”) está em perfeita sincronia com a tensão orquestrada por Villeneuve em cada sequência. E, como uma pintura, a fotografia realizada por Roger Deakins está impecável alternando tomadas wide screen de paisagens com close-se meticulosamente iluminados para captar até o mínimo de poeira em cena. Um trabalho lindamente realizado que somados formam um grande filme. E que venha a temporada de premiações.

Confira o trailer: